Dezembro de 1997
Peru revaloriza suas tradições
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Internacional

Peru revaloriza suas tradições

Refletindo saudável tendência, os peruanos manifestam um renovado apreço por seu passado histórico

Alejandro Ezcurra Naón
Correspondente

Lima -- Nossa época pós-moderna caracteriza-se por sua bivalência. De um lado, a desestabilização e o caos -- um caos programado -- se fazem sentir cada vez mais em múltiplos aspectos da vida pública e privada.

De outro, como reação instintiva a esse caos, existe em amplos setores do público um anseio de estabilidade, de ordem, de pontos de referência firmes e imutáveis.

Teologia da libertação e socialismo desfiguraram lugares históricos...

Tal bivalência é particularmente digna de nota no Peru, nação que alcançou brilho invulgar como um dos Vice-Reinados da América Espanhola, e que foi vítima, há não muito tempo, de 1969 a 1992, de implacável sanha revolucionária.

O virulento reformismo socialista dos anos 70, seguido do terrorismo comunista dos anos 80 -- ambos insuflados pela teologia da libertação --, arruinaram o país. Centenas de milhares de camponeses se viram forçados a migrar para os grandes centros, provocando miséria e caos sócio-econômico, no campo como nas cidades.

Em muitas delas, massas empobrecidas haviam invadido as tradicionais áreas centrais -- por exemplo o famoso Centro Histórico de Lima -- para ali exercer todo tipo de comércio informal, ocupando desordenadamente ruas, avenidas, praças e passeios. A elas somaram-se elementos marginais como vagabundos, contrabandistas, vendedores de drogas, mulheres de má vida.

Em conseqüência, amplos setores urbanos degradaram-se até ficarem quase irreconhecíveis, tornando-se focos de insegurança, sujeira e corrupção generalizada. Casas comerciais e escritórios profissionais tiveram que abandonar o centro de Lima, para se estabelecer em bairros mais seguros. Os prédios assim abandonados foram se transformando em ruinosos tugúrios.

Até as magníficas igrejas e edifícios públicos do centro foram atingidos por essa degradação geral, mostrando lamentáveis sinais de deterioração e abandono.

Assim, por uma chocante inversão de papéis, o centro de Lima oferecia o aspecto de uma zona marginal, que o público evitava de freqüentar tanto quanto podia. E o mesmo ocorria em outras cidades, como Trujillo e Ica, no litoral, ou Cuzco e Huancayo, na serra.

...contrariando os desejos autenticamente populares

Nos últimos anos, porém, a reação do povo peruano a favor da ordem se fez sentir cada vez com mais vigor.

Como fruto dela, uma eficaz ação militar conteve o terrorismo e a segurança voltou gradualmente. Leis socialistas, como a nefasta Reforma Agrária, foram em larga medida atenuadas; o direito de propriedade voltou a ser livremente exercido e a economia entrou em via de recuperação.

Contando com o apoio unânime da população, as autoridades municipais e o governo central, deixando de lado rivalidades políticas, vêm somando esforços para recuperar os centros tradicionais de cidades históricas. A iniciativa privada colabora decididamente nessa tarefa.

Assim, belíssimas igrejas, como a Compañía ou La Merced em Cuzco, a Basílica do Rosário em Lima, ou a igreja de São Domingos em Arequipa, foram restauradas. Seus maravilhosos altares coloniais, em madeira de lei revestida de ouro, recuperaram o antigo esplendor.

Em Lima, a célebre Plaza Mayor foi completamente renovada, destacando-se o famoso chafariz de bronze coroada por um Anjo, que data de quase 400 anos, e que volta a alegrar os limenhos com seus rumorosos jogos de água.

Semelhante tratamento receberam outros logradouros da cidade, como a Praça San Martín ou o Parque Universitário, contíguo à Universidade de São Marcos (a mais antiga da América Latina, também restaurada).

Mais de 400 solares coloniais deteriorados no centro histórico, famosos por seus característicos balcões de madeira, começam a ser restaurados conforme um projeto conjunto da Municipalidade e a iniciativa privada.

O comércio informal foi erradicado das vias públicas. A ordem, a limpeza e a segurança voltaram a reinar em setores até há pouco transformados em focos de delinqüência e até em verdadeiros depósitos de lixo.

As famílias limenhas podem voltar a passear no centro histórico -- inclusive em antigas carruagens -- e deleitar-se admirando as esplêndidas construções que outrora fizeram de Lima a mais aristocrática cidade sul-americana.

Manifestações diversas de apreço pela tradição

Em meio a tais iniciativas, o gosto pelas coisas tradicionais parece tomar um certo impulso no Peru. Essa tendência estende-se aos mais inesperados campos de atividade. Por exemplo, a criação do famoso cavalo de paso peruano, um dos mais apreciados do mundo por seu estilo de marcha. Monta-se, de acordo com o costume, em traje de chalán (proprietário rural) tradicional: grande chapéu de aba larga, poncho de linho, camisa e calças brancas com um faixa colorida e botas curtas sob as calças.

Cresce também a apetência do público pela música tradicional, em todas as classes sociais. Um expressivo sintoma disso é que a Orquestra Sinfônica Nacional do Peru oferece agora concertos de música clássica ou barroca (como Bach, Mozart, Handel ou Vivaldi) ao ar livre, até em longínquos bairros populares de Lima.

O Peru mostra assim renovado apreço por seu passado histórico. Fato que denota uma certa nostalgia da civilização cristã e clara rejeição de certos aspectos dessa Revolução universal, que tenta destruir sistematicamente os últimos vestígios de uma ordem temporal profundamente hierárquica e sacral, anti-igualitária e antiliberal.

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