Julho de 2009
 
O anfiteatro providencial do batismo de Jesus
Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão
Destaque

O anfiteatro providencial do batismo de Jesus

Cenário geológico que atrairá os olhos da humanidade até o fim dos tempos. Representa uma lição para o mundo situar-se o local do batismo do Redentor duas centenas de metros abaixo do nível do mar?

 

R. Mansur Guérios

Lugar no rio Jordão onde a Tradição indica ter se realizado o batismo de Nosso Senhor
Em recente viagem de cinco dias à Terra Santa, o Papa Bento XVI esteve em diversos lugares sagrados relacionados com a Redenção. Nessa oportunidade, acompanhado do rei Abdullah e da rainha Rania da Jordânia, Bento XVI visitou o local onde Jesus foi batizado, às magens do rio Jordão. Nessa área, em Betânia da Transjordânia, “na fronteira entre Israel e Jordânia, serão construídas duas novas igrejas cristãs”.(1) Qual o significado desse lugar para os católicos?

A importância do batismo de Jesus por São João Batista é de tal ordem, que os quatro evangelistas a ele se referem. Houve um Precursor, que veio preparar os caminhos para a chegada do Messias. São João Batista habitava o deserto da Judéia, “um terreno abrupto, pedregoso e estéril. Apenas na primavera, em algumas partes tem algo verdejante. Possui 80 km de comprimento por cerca de 20 a 25 km de largura, uma área de cerca de 1.700 km2. Essa região inóspita foi o teatro das meditações de João. Era um lugar apto à vida eremítica”.(2) Ali São João atraía multidões que acorriam para receber seu batismo, administrado em toda a região do Jordão, onde ele “pregava um batismo de penitência para o perdão dos pecados” (Lc 3,3).

O que vem a ser essa penitência? O termo penitência é sumamente significativo (em grego: metanoeite). Não se refere ao aspecto penitencial e ascético da penitência, embora possa incluí-lo como conseqüência, mas significa algo muito mais profundo: uma mudança de mentalidade, de pensar, que no sentido semita é também um modo de ser. Corresponde ao verbo hebraico shub (voltar-se), com o qual tantas vezes os profetas exortam o povo a voltar-se para Deus, a “converter-se”. É cumprir, num sentido moral, o que os evangelistas evocam de Isaías: “Preparai os caminhos do Senhor, endireitai as suas veredas”.(3)

*       *       *

“Os quatro evangelhos unem lógica e historicamente o batismo de Cristo com a obra do Batista, não só porque a obra deste era para preparar a digna recepção do Messias, mas também porque o batismo de Cristo era o sinal oficial com que o Batista reconheceria a Cristo como Messias, e a partir do qual poderia apresentá-lo a Israel”.(4)

É conhecida a cena do batismo de Jesus. A resistência de São João Batista só é vencida pelo convite-ordem de N. S. Jesus Cristo: “Deixa-me fazer agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça” (Mt 3, 15).



“O batismo de João era de água, e o administrava [...] em Betânia da Transjordânia” (Jo 1,28; 10,40)”.(5) N. S. Jesus Cristo “podia receber o batismo de João, porque, ainda que fosse ‘batismo de penitência para remissão dos pecados’, era apenas de ‘água’. Não conferia, por si, nem justificação, nem o Espirito Santo, nem aumento da graça. Do contrário Cristo não poderia recebê-lo, pois não tinha pecado algum nem podia aumentar na plenitude da graça, que tinha desde a encarnação.(6)

“Vê-se nesse ato de Cristo, além do ‘sinal’ para o Batista, uma profunda conveniência. O batismo de Cristo é o começo e como que a consagração de sua vida pública e messiânica. Na enérgica expressão de São Paulo, Cristo sobe na cruz para ‘fazer-se maldição por nós’ (Gal. 3, 13). E assim, ao começar sua vida pública de Redentor, sai e aceita antes publicamente este batismo de penitência ‘para a remissão dos pecados’, com o mesmo sentido vicário (que faz as vezes de outrem) com o qual ele subiria à cruz. Este batismo é como a consagração oficial vicária de sua vida pública de Redentor e de Vítima pelos homens.

“O batismo de Cristo no Jordão foi por imersão, pois Mateus e Marcos dizem que, uma vez batizado, ‘ascendeu’, saiu da água”.(7)

*       *       *

O Mar Morto
A Terra Santa foi o ambiente escolhido por Deus para a Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Desde Abraão, tudo convergia para a vinda do Messias naquela que era a Terra Prometida.

 

 

Nada, porém, acontece por mero acaso. No local do batismo há uma peculiaridade geológica, só compreendida em nossa época: o cenário escolhido pelo Redentor para o seu batismo tinha as características geológicas de um grande anfiteatro, tomada aqui a palavra num sentido alegórico. São conhecidas as características do teatro na Antiguidade clássica: os anfiteatros gregos eram em forma de semi-círculo; os romanos, de círculo ou ovais; e os assistentes ficavam em nível elevado em relação ao palco. Tal formato facilitava não só a visualização do que se encenava, como permitia uma audição em condições acústicas excepcionais para toda a platéia.

Como era o anfiteatro geológico do batismo de Nosso Senhor? As características de Israel são únicas. Está dividido no sentido norte-sul pelo profundo vale do rio Jordão, cujo percurso tortuoso, de cerca de 250 km, em sua maior parte encontra-se abaixo do nível do mar. A quase meio caminho, o lago de Genezaré, também conhecido como mar da Galiléia, está a 212 metros abaixo do nível do mar. Depois desse percurso acidentado, o rio Jordão desemboca no mar Morto, 392 metros abaixo do nível do mar, o ponto mais baixo da Terra. Este mar não se comunica com outro, suas águas se evaporam. Os detritos que o rio carrega vão nele se depositando, e sua alta salinidade o torna desprovido de vida. Daí o nome: mar Morto.

O Mar da Galiléia
Assim, a cena do batismo se passa num como que anfiteatro do mundo. É pungente que o Filho de Deus, ao iniciar sua vida pública, escolhesse por cenário não uma cascata cristalina de montanha, e sim um vale profundo. Há na Terra alguns vales abaixo do nível do mar, mas nenhum tão baixo como este. O maior dos profetas — São João Batista — aí o aguarda. De início recusa-se a batizá-lo, acedendo apenas por obediência. Nosso Senhor Jesus Cristo desce às águas e recebe o batismo. As águas que tocaram seu Corpo sagrado tornaram-se santas. As impurezas que continham foram eliminadas. Assim, ao retornar ao leito do rio, conduziram simbolicamente as nossas misérias e ingratidões, crimes e pecados para o mar Morto, o mar sem vida, inerte, cujas águas não se comunicam com outras, e apenas por evaporação retornam à natureza. Semelhante à água da pia batismal, que não se comunica com outras águas e é lançada à parte.

*       *       *

 
Vista aérea do Monte Tabor
Com relação ao batismo, ao sair em seguida (Mt, Mc) da água quando ele estava em oração (Lc), três fenômenos se sucedem: a) abrem-se os céus; b) desce uma pomba, que era o Espírito Santo (Lc); c) simultaneamente ouve-se do Céu a voz do Pai, que diz: ‘Este é o meu Filho, o Amado; nele me comprazi’.(8) Assim, abre-se o Céu, que estava fechado; o Espírito Santo desce sobre o Cordeiro de Deus; a Vítima está preparada. Em certo sentido, daquelas profundidades geográficas brota a raiz frondosa do Corpo Místico de Cristo.


É tudo? Não. A natureza da Terra Santa é acidentada, cheia de contrastes, não singela como um pampa. Nas narrações evangélicas destacam-se mais as elevações: o Sermão da Montanha, a Transfiguração no Tabor, a Crucificação no alto do Calvário, nas cercanias de Jerusalém, a qual está 700 metros acima do nível do mar; e a Ascensão aos Céus no monte das Oliveiras. Os vales são mencionados de passagem.

O Monte Tabor ao entardecer
Porém, há outra peculiaridade. Algum tempo depois do batismo de Jesus, São João Batista foi preso por Herodes. Nos domínios deste estava Nazaré. Para evitar uma perseguição antes da hora, e também por ter sido expulso de sua cidade, Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora passaram a viver em Cafarnaum, às margens do mar da Galiléia, que está 212 metros abaixo do nível do mar. Assim, sua vida pública adquire uma nota singular: o Verbo Encarnado quis viver ali, que é também a cidade de São Pedro, e é a partir dali que empreende suas viagens.

*       *       *

Monte das Oliveiras
Teria isto algum ensinamento para o homem contemporâneo? Não seria outra lição de humildade, beirando o incompreensível, que o local do batismo do Redentor e sua residência habitual estivessem situados numa área duas centenas de metros abaixo do nível do mar?

Podemos considerar que esse lugar rebaixado na natureza constituía um anfiteatro providencial, no qual se desenrolaram alguns dos fatos mais marcantes da história da humanidade, de modo que para ele se voltaram, cheios de unção, os olhos dos homens, durante os dois mil anos seguintes. E assim continuarão a fazer até o fim dos tempos!

_____________

Notas:

1. “O Globo”, 11-5-09

2. Cfr. Biblia Comentada, por Professores de Salamanca –– B.A.C., Madrid, 1963, vol. V, p. 48

3. Cfr. op., cit. p. 52

4. Op. cit., p. 60

5. cfr. Suma Teológica, III, q. 7, a. 12, apud op. cit., p. 52

6. Op. cit., p. 62

7. Op. cit., p. 62

8. Cfr. op. cit., pp. 62-63

Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão