Julho de 2009
Ibero-américa: novamente em chamas?
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Ibero-américa: novamente em chamas?

Durante anos as esquerdas se assenhorearam de governos latino-americanos através de candidatos populistas de orientação socialista, estranhamente apoiados por partidos e forças centristas. À medida que se tornaram numerosos, e alguns deles tendo lançado mão dos recursos do poder, começaram a deixar cair a máscara, não ocultando sua admiração pelo regime cubano, cujos passos ansiavam seguir. Como sucedeu décadas atrás, a Ibero-américa poderá crepitar em chamas.

 

Alfredo Mac Hale

Um dos acontecimentos mais indicativos da conjuntura política ibero-americana nos últimos meses foi sem dúvida a série de homenagens prestadas à tirania castro-comunista que flagela Cuba, por ocasião do cinqüentenário de seu estabelecimento. Nos primeiros meses do ano, praticamente todos os governantes da Ibero-américa se apressaram a prestar homenagem ou submissão ao já aposentado e decrépito ditador da ilha, competindo de modo vergonhoso em externar essa atitude.



Cuba: meio século de coletivismo forçado e de miséria brutal

O presidente Lula, por exemplo, embora sabendo que a única liberdade existente em Cuba é a de submeter-se de forma servil ao regime stalinista dominante, declarou que “apenas o que fez de mal é conquistar sua liberdade”. Esse comentário é um escárnio dirigido a todo um povo injustamente atormentado, bem como manifestação de solidariedade em relação a uma tirania sanguinária e perversa.

A presidente chilena Michelle Bachelet, em viagem a Havana, alegou razões de protocolo para negar-se a receber os dirigentes da incipiente oposição da ilha-prisão. Mas, ao recebê-la um dia depois, Fidel Castro rompeu a diplomacia mais elementar, intervindo em favor da Bolívia na controvertida questão com o Chile, de acesso ao mar, como se fosse um árbitro internacional.

São duas atitudes escandalosas, numa lista de várias dezenas praticadas por supostos moderados. Não citamos as atitudes de Chávez, Morales, Correa ou Lugo, pois já não resta nenhuma dúvida a respeito do fanatismo filocastrista destes. Demonstram a orquestração dos socialistas de todos os naipes no apoio a um regime que é a vergonha das Américas.

Por que vergonha? Porque submeteu seu povo a uma miséria sem paralelo, forçou a parte mais dinâmica de sua população ao exílio, estendeu a violência guerrilheira e terrorista a todo o continente e serviu-se do narcotráfico praticado pela guerrilha marxista para disseminar o crime e impor o coletivismo por toda parte. A isso poder-se-ia acrescentar um sem-número de outros motivos.

Cuba, exemplo prototípico dos males do comunismo

Havana e a miséria chocante de suas ruas
Para os socialistas, nada disso importa. Pelo contrário, eles se ufanam de tais “proezas”, pois julgam que não existem razões de índole moral, porquanto Marx dizia que a única “moral” é a conveniência do comunismo. E a conveniência principal para este é que a Cuba castrista apareça como a nação líder de muitas outras, na imposição a qualquer custo das teses aberrantes de Marx; e o custo disso consiste numa catástrofe brutal para os países vítimas desse infortúnio.

Os comunistas procuram obviamente culpar outros pelas catástrofes que eles mesmos produzem. No que respeita a Cuba, atribuem sua miséria ao embargo comercial imposto pelos EUA. É inevitável que o coletivismo provoque miséria, mas isso também corresponde a um desígnio marxista, pois os líderes comunistas calculam que, quanto mais intensa for a miséria em Cuba, tanto mais fácil será para o regime mobilizar sua população na “luta contra o imperialismo”.

Ademais, quando as esquerdas quiseram dobrar e mesmo derrubar governos anticomunistas, não vacilaram em tramar e promover boicotes e embargos comerciais contra os mesmos, apesar de suas respectivas populações sofrerem como efeito as maiores privações. Em tais circunstâncias, não houve voz religiosa, assistencial ou humanitária que fizesse apelos em sentido contrário, simplesmente porque se tratava de um desígnio inexorável da Revolução mundial.

Reinserção de Cuba na OEA: fortalecimento do pólo marxista

Na Cúpula Continental de Trinidad-Tobago, Barack Obama (círculo) teve um gesto de distensão em relação a Cuba
O apoio dos governos ibero-americanos em favor da Cuba castrista acentuou-se no início de maio passado, quando foi aprovada por unanimidade sua reintegração à OEA, de onde fora excluída em 1962 por ter o regime castrista sido pertinaz no uso da violência subversiva, atitude que não variou em nada, nem demonstrou intenção de fazê-lo. Ademais, a aceitação do regime castrista incidia em flagrante ilegalidade, pois em 2001 a OEA aprovou novas normas exigindo dos países membros a vigência de governos democráticos e respeitosos dos direitos humanos. Para obviar tais normas, resolveu-se anular a expulsão e deixar pendente a readmissão, o que deu a Fidel Castro pretexto para recusar a readmissão.

O resultado dessa comédia grotesca foi um acúmulo de absurdos: absolveu-se o castrismo de suas culpas mais evidentes; o réu quis transformar-se em juiz, exigindo pedidos de desculpas, porque seus crimes foram recusados; convidado a reincorporar-se à OEA, como ele sempre reinvindicara, sua resposta foi o desprezo; não mais excluída pelos demais países, a ditadura cubana se auto-excluiu, ficando ao mesmo tempo dentro e fora do organismo interamericano...

Qual a razão para essa suma incoerência? Ela se produz porque não se quer reconhecer a ilegitimidade de um regime que durante meio século se identificou com o crime subversivo, e ao qual não renunciou. Os governos de várias nações afetadas por esse regime aceitam-no de coração, mas não podem aprová-lo por palavras. Eles sentem que a opinião pública dos respectivos países pensa de outro modo, pois sua tolerância não chega ao extremo de aceitar o intolerável. Isso não obstante, todos os atores da comédia se afirmam democráticos...

Lula com Raúl Castro: o governo petista cada vez mais próximo dos ditadores cubanos
Em outros termos, os governos do continente, em coro, declararam-se solidários com um regime que ataca todos os povos, acrescentando que tal não os impede de conduzir políticas consonantes com os anseios desses mesmos povos. O que equivale a dizer que julgam não existir nessa matéria nem bem nem mal, que a coerência e a lógica não têm lugar, e que contradizer-se é a coisa mais normal do mundo.

Enquanto o pólo do mal se obstina nas práticas mais reprováveis — violação de direitos elementares como a vida, o pátrio poder, a propriedade privada, a prática da Religião, etc. — não há governos que reconheçam não apenas de palavra, mas de verdade, a importância desses valores. Resulta então que a força predominante no contexto político do continente é eminentemente demolidora, uma vez que as nações deixaram de defender suas soberanias, a ordem jurídica, os direitos básicos da população, a harmonia internacional, etc.

Ante essa ofensiva, qual a atitude do novo governo norte-americano? Já a manifestou Barack Obama, em abril último, na Cúpula Continental de Trinidad-Tobago: gestos de distensão em relação a Cuba, ou seja, sucessivas concessões com a ilusão de tirar impulso à arremetida marxista. Mas o efeito concreto — sempre presente, quando se pratica esse tipo de concessões — é de estimulá-la e dar-lhe uma aparência de vitória.

O bloco marxista irredutível, liderado pela Venezuela

Hugo Chávez, com suas pretensões ditatoriais, provoca reações crescentes na opinião pública venezuelana
O principal seguidor de Fidel Castro na região é obviamente Hugo Chávez, o ditador venezuelano que ao cabo de dez anos conseguiu concentrar em suas mãos o Legislativo, o Judiciário, a Controladoria, o Tribunal Eleitoral –– enfim, praticamente todo o Poder público. Ele se afirma seguidor convicto de Marx, cujas teses absurdas e ruinosas continuamente ameaçam pôr em prática. Não contente com o açambarcamento da máquina estatal, Chávez usurpa ou verga os meios de comunicação, efetua confiscos em série na indústria e na agricultura, e forma uma força dominante da qual ele é o chefe absoluto, com vistas à implantação do plano revolucionário bolivariano.

Não se trata na realidade de um plano sério, mas de iniciativas improvisadas do Executivo, que rapidamente se concretizam em projetos de lei de tramitação apressada. Nelas deixa sua marca o presidente, que as promove em programas televisivos oficiais, sem muita preocupação com a coerência geral, exceto no tocante a seu caráter “anti-imperialista”, contrário à burguesia e favorável ao “povo”.

Chávez despoja de seus cargos importantes autoridades recém-eleitas. Por exemplo, os prefeitos que são os responsáveis pelo controle dos portos, aeroportos e rodovias, as policiais, as de linhas de transporte e as de hospitais. Ou faz aprovar — como aconteceu com a cidade de Caracas — uma lei constituindo-a Distrito Capital, transferindo para ela orçamentos, recursos e locais de funcionamento que, por lei, pertenciam ao município. Assim, numerosos prefeitos e governadores recentemente eleitos ficaram reduzidos à impotência, enquanto a máquina chavista domina o campo e as cidades através de órgãos recém-criados, de modo incompatível com o que restou da ordem jurídica do país.

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