Julho de 2009
Na União Européia, a esquerda em queda livre
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Internacional

Na União Européia, a esquerda em queda livre

O resultado das recentes eleições européias deixou patenteado que, apesar da atual crise econômica, cresce a recusa ao socialismo no Velho Continente

Carlos Eduardo Schaffer
Correspondente – Áustria

Uma infeliz coincidência: é convite para votar ou para assistir ao circo?
Viena – As eleições para o Parlamento Europeu (736 deputados), ocorridas no primeiro fim de semana de junho, deslocaram o centro de gravidade daquela assembléia, antes favorável aos euro-entusiastas, rumo aos chamados euro-críticos e euro-céticos, ou até mesmo em direção àqueles que advogam para seu país o desligamento da União Européia (UE). Foram eleitos muitos deputados que abertamente defendem a volta a uma mera comunidade de interesses mútuos especialmente no campo econômico. Do ponto de vista ideológico, houve um forte deslocamento para a direita.

A mídia em geral vem apresentando, desde meados de 2008, a crise econômica mundial como sendo a derrota do capitalismo e uma nova grande chance para o socialismo. Não foi isto que a leitura dos resultados desta eleição revelou. O eleitorado reforçou a posição dos partidos mais voltados para uma solução do problema dentro do sistema da livre iniciativa.

Outro aspecto que mostra o desprestígio da UE foi a forte abstenção. Em toda a Europa, a taxa de participação baixou de 61,9% em 1979 para 42%,(1) quando em eleições nacionais ela costuma estar entre 70 e 85% na maioria dos países. Dos 375 milhões de eleitores, pouco mais de 160 milhões compareceram às urnas. Na Eslováquia o comparecimento foi de somente 16,6%.

As principais preocupações dos europeus

Muitas vezes o voto é decidido por conveniências de ordem econômica, como no caso dos eleitores de pequenos países que recebem da UE fortes subsídios para seu desenvolvimento; ou por desejo de inserção mais definida no quadro político da Europa ocidental, para o caso dos países que pertenceram ao bloco comunista; ou ainda pelo desejo de alguns de ver a Europa se transformar num contrapeso aos Estados Unidos no panorama político mundial. Mas pode-se notar que os temas das campanhas eleitorais vão se deslocando gradualmente para pontos de maior importância do que esses.

Inquietação com o grave perigo muçulmano

Uma das grandes preocupações dos europeus é a forte imigração muçulmana procedente especialmente da Turquia e do norte da África, mas também de outros países. Esses imigrantes tendem a se agrupar em “guetos” nas grandes e médias cidades; não se deixam integrar facilmente às populações que os acolhem; registram uma taxa de criminalidade, especialmente juvenil, muito superior à do meio em que habitam; e sofrem forte influência de líderes religiosos radicais financiados por ricos países produtores de petróleo. Os negros também, muçulmanos ou não, têm causado apreensão aos europeus, não por racismo, mas porque a rede de distribuição de drogas em muitas cidades é, em grande parte, feita por eles.

A entrada da Turquia na comunidade européia

Há por isso forte resistência à entrada da Turquia na comunidade. Ao contrário dos outros países muçulmanos, o governo turco se caracterizou no século XX, desde o governo do presidente Mustafá Kemal Ataturk, por uma separação entre o Estado e a religião e por uma proximidade mais intensa com o mundo ocidental. Mas esta situação vem mudando. O atual governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan se diz laicista, mas em seu seio atuam poderosas influências muçulmanas-clericais. Se a Turquia for aceita na comunidade européia e as forças religiosas vierem a dominar o governo turco, o país poderá se tornar a porta aberta para uma imigração muçulmana ainda maior, e talvez para a entrada fácil de movimentos radicais e terroristas nos demais países.

Imposições antidemocráticas da hidra de Bruxelas

Maciça propaganda pró-eleições não entusiasmou o público europeu
Outra preocupação, ainda mais grave do que a do perigo muçulmano, é a gradual transformação do governo de Bruxelas em uma poderosa hidra, que vai destruindo rapidamente as autonomias nacionais e impondo normas e leis de caráter centralizador, socializante e anticristão do ponto de vista moral e religioso.





Entre 70% e 80% das leis atualmente aprovadas em diversos parlamentos dos países membros da UE têm sua origem em diretrizes impostas por Bruxelas,(2) elaboradas pela Comissão Européia, composta por 27 comissários nomeados pelos governos de cada país-membro, e apenas ratificadas ou modificadas pelo parlamento eleito por voto popular. Toda iniciativa legislativa só pode partir dessa poderosa e misteriosa comissão. Trata-se de procedimento tão antidemocrático, que tem causado movimentos no sentido de procurar atribuir maiores poderes ao Parlamento, que tem sede em Estrasburgo mas realiza também algumas sessões em Bruxelas, e possui comissões na capital belga.

Tratado de Lisboa ignora as raízes cristãs da Europa

 Um projeto de Constituição Européia, elaborado em 2004, foi em 2005 rejeitado por plebiscito na França e na Holanda. Em 13 de dezembro de 2007 a poderosa comissão apresentou um texto quase idêntico, apenas com novo nome: Tratado de Lisboa. Este tratado diminui ainda mais a autonomia dos países e contém nove pontos que ferem gravemente princípios cristãos, conforme denunciou a Irish Society for a Christian Civilisation:(3) ignora a Lei de Deus e as raízes cristãs da Europa; contradiz princípios da Lei natural; abre campo para o aborto, a eutanásia e as pesquisas com células-tronco embrionárias; reconhece a homossexualidade como base para a não discriminação; impõe a igualdade entre os sexos em todos os níveis; abala o conceito de família, dissociando-o da união entre um homem e uma mulher; impõe limites excessivos ao direito dos pais de educar seus filhos de acordo com suas crenças; ignora a identidade dos diversos povos que formam a Europa. O Tratado de Lisboa foi também rejeitado por plebiscito pela Irlanda em junho de 2008.

União Européia: uma nova União Soviética?

O presidente da República Tcheca, Václav Klaus, tem-se oposto fortemente ao Tratado de Lisboa. Embora já tenha sido aprovado pelo parlamento e suprema corte do país, o presidente ainda não o assinou. Em 12 de fevereiro a Rádio Praga, da capital da República Tcheca),(4) em seu site em língua alemã, assim noticiou declarações do Sr. Klaus à revista “Paris Match”: “‘Como outrora na URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), decisões muito importantes na União Européia não são tomadas nos países a que elas concernem’. Klaus propõe que várias competências atualmente atribuídas a Bruxelas sejam trazidas de volta aos países da União”.

A Sra. Margot Wallström, desde 2004 vice-presidente para Relações Institucionais e Estratégias de Comunicação da Comissão Européia, declarou em 13 de junho de 2008, a propósito do Tratado de Lisboa, no programa Newsnight(5) da BBC de Londres, logo após a derrota do tratado na Irlanda: “Os líderes políticos (da UE) investiram tanto capital político, tanto tempo e energia para tentar obter os novos mecanismos para que a UE funcione melhor, que é claro que não se darão por vencidos tão facilmente. Vão tentar continuar lutando, porque precisamos fazê-la mais democrática, mais efetiva”.

Mas que democracia é essa, em que só a Irlanda teve a oportunidade de se manifestar por plebiscito? Além disso, como o resultado não foi o que “eles” queriam, “eles” vão continuar lutando até que aquele país diga sim. A Sra. Wallström prometeu várias vezes, na entrevista, que fariam modificações para atender às preocupações dos irlandeses, mas nada foi especificado sobre esse atendimento, e até agora não se modificou nenhuma vírgula do tratado.

Na Áustria foram realizadas em 2008 duas grandes demonstrações públicas pedindo a realização de um referendo sobre o tratado, mas o governo de coalizão SPÖ-ÖVP (social-democratas e Partido Popular) não atendeu tal anseio da população, porque sabia que o tratado não seria aprovado.

A falta de transparência da grande máquina burocrática da UE suscita muita desconfiança entre os eleitores. As grandes perguntas referentes ao que tem acontecido até agora, sem respostas claras, são as seguintes: aonde nos levarão finalmente as constantes mudanças propostas por Bruxelas? Qual é o objetivo final? Ninguém sabe dar resposta exata a estas questões.

Os enormes gastos da gigantesca máquina burocrática e a generosidade com que são pagas as despesas de viagens dos deputados também têm constituído grande escândalo para a população.

Resultados mais importantes nas eleições européias

Diante desse quadro, o eleitorado se manifestou claramente mais favorável aos partidos ou candidatos de centro ou de direita, em cujos programas viam atendidas uma ou outra de suas maiores preocupações. A esquerda sofreu graves perdas em países onde governa sozinha ou em coalizão com partidos de centro. No conjunto da Europa, entretanto, progrediu o Partido Verde, embora minoritário, passando de 43 para 51 deputados.

O caso mais espetacular foi o da Inglaterra, onde o Partido Trabalhista (socialista) sofreu sua maior derrota desde 1920, obtendo apenas 15,31% dos votos, contra 27% do Partido Conservador e 16,08% do euro-cético UKIP (Partido Independência do Reino Unido).

Na Holanda, país de forte oposição aos excessos de Bruxelas, quem mais avançou foi o PVV (Partido para a Liberdade) de Geert Wilders, obtendo 15,3% dos votos com a bandeira anti-Islam, atrás apenas dos democratas cristãos, com 19,6%. Os maiores derrotados foram os socialistas, que passaram de 24% em 2004 para 13,9% agora.

Na Áustria, o partido que mais avançou foi o FPÖ (Partido Liberal da Áustria), também com o lema anti-Islam “a Cristandade nas mãos dos cristãos”, passando de 6,31% para 13,08%. O partido socialista (SPÖ) foi o grande perdedor, passando dos 33,3% de 2004 para 23,85%. O Partido Verde perdeu 3% dos votos, ficando com apenas 9%, mas conseguiu eleger dois deputados. O Partido do Povo ficou em primeiro lugar, com 29,69%, embora tenha perdido 3% em relação a 2004.

Na Itália ganhou o partido de Sílvio Berlusconi, o PDL (Popolo della Libertà), de centro-direita, com 35,25% dos votos, seguido do PD (Partido Democrático), de centro-esquerda com 26,14%; da Liga do Norte, de direita, com 10,22%; e do IDV (Itália dei Valori), conservador católico, com 8%. Este  teve como candidato mais conhecido o egípcio Magdi Allam, convertido do Islã ao catolicismo na Páscoa de 2008.

Na Alemanha, o SPD (Partido Social Democrata da Alemanha) repetiu os 21% de 2004, sendo estes os dois piores resultados de sua história. O CDU (democracia cristã nacional) baixou de 36,5% para 31,3%, e o CSU (democracia cristã bávara) baixou de 8% para 7,1%. O FDP (Partido Liberal) ficou com 10%, logo atrás dos Verdes com 11%.

Na Espanha, o PP (Partido Popular) de Mariano Rajoy, conservador, avançou de 41,21% em 2004 para 42,03, e o PSOE (Partido Socialista Obrero Español) de Zapatero baixou de 43,46% para 38,66%.

Na França, o UMP (Union pour un Mouvement Populaire), de centro-direita, do presidente Nicolas Sarkozy, foi o mais votado, obtendo 28% dos votos. O PS (Parti Socialiste), com 16,8%, vai perdendo enormemente sua influência. Cresceu na França o Partido Verde, de Daniel Cohn-Bendit, o mais famoso líder estudantil da Revolução de maio de 1968 em Paris. Seu partido, com 16,2% dos votos, contribuiu fortemente para o crescimento do PV Europeu.

“Áustria atacada pelo vírus de Bruxelas”

Assim definiu o jornal “Die Presse” de Viena, em 16-5-09, a situação crítica da esquerda na Áustria, face às eleições que se aproximavam. Um mês antes do pleito para a UE, já era claro que a esquerda iria perder. Mas essa previsão se estendeu a toda a Europa. As eleições européias constituíram um “cartão amarelo” para toda a esquerda européia, que se encontra em queda livre e não tem mais onde se apoiar. Se procurar alianças mais à direita, decepciona seu eleitorado mais fiel. Voltando-se para seus velhos e ultrapassados ideais, perderá o centro. Em Viena, considerada “cidade vermelha” há muito tempo, o Partido Socialista está ameaçado de perder sua maioria nas próximas eleições.

___________________

Notas:

1. http://www.elections2009-results.eu/fr/hist_turnout_eu_fr.html

2. “Die Presse”, Viena, 8-6-09

3. http://www.isfcc.org/

4. http://www.radio.cz/de/nachrichten/113206

5. http://www.youtube.com/watch?v=Cvcdsj3ZWkg&eurl=http%3A%2F%2Fblog.balder.org%2F%3Fp%3D430&feature=player_embedded

6. http://www.lemonde.fr/elections-europeennes/visuel/2009/04/16/le-parlement-europeen_1181444_1168667.htm

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