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O galo, o pato e a decadência do Ocidente
Plinio Corrêa de Oliveira
Para se compreender o processo de decadência
por que passa o Ocidente em nossos dias — um processo de
desdouramento, a par de um curso causado pela Revolução
multissecular tendente a tornar todas as coisas "pardas" —,
vou empregar duas metáforas, ambas inspiradas em cores: o ouro
e o pardo.
É necessário ajustar bem as metáforas,
para eu me tornar bem compreendido: uma coisa é arrancar o
ouro; outra é comunicar uma cor parda às coisas. A cor
áurea está para a cor parda mais ou menos como, por
exemplo, poder-se-ia dizer que o galo está para o pato.
O galo é áureo. O pato é o galo
pardo, privado da elegância, do senhorio e da fidalguia do
galo. O pato seria o burguês do terreiro, enquanto o galo é
o nobre, o fidalgo.
O pato é, na sua insipidez, mas também
na honestidade de suas formas, uma ave amiga do homem. Passeia
inofensivamente pelos espaços que lhe são concedidos,
não importuna ninguém, não irradia de si o
mínimo de poesia nem de elegância, mas serve para ser
comido.
***
Poderíamos então imaginar um galo
pensante, que se deixasse tomar de admiração pelo pato
e desse ouvido ao que este lhe dissesse: "Eu sou um animal
útil, você é apenas decorativo. A mim os homens
comem, você não serve para ser comido. Você,
portanto, não é produtivo. Você é apenas
um ente que passeia por aqui, e que ajuda a povoar o galinheiro. Mas
o saboroso, a ave de banquete sou eu. No galinheiro você é
o rei, mas meu cadáver tem uma alta categoria na mesa dos
homens para os quais nós fomos criados, e na qual você
não é admitido. Você vai para o lixo, eu vou para
o estômago dos homens, sou digerido por eles e me transformo na
carne deles. E você?"
E imaginemos que o galo num momento de
fraqueza, tão freqüente em quem está colocado no
alto da hierarquia social começasse a duvidar de seu
próprio esplendor e se perguntasse: "Não seria
melhor eu me transformar em pato? Não haveria para mim uma
ascensão? Eu não entraria mais no terreno do real? Eu
não me deveria patificar?"
Admitamos que um galo se convencesse disso. É
quase inimaginável que ele não procurasse, ipso
facto, perder algo de sua elegância, de sua distinção,
e, no fundo, algo de sua morfologia.
Sua cabeça pesaria, ele então
procuraria raspar a crista, por ser inútil. O pescoço
perderia o seu movimento. A cauda baixaria, e ele transformar-se-ia
numa espécie de pato de segunda classe. Inútil como
tantas coisas decorativas, e, por outro lado, sem beleza como tantas
coisas úteis: ele reuniria o inútil ao desagradável.
Ficaria reduzido a absolutamente nada.
***
Tal processo seria comparável àquele
que sofreram as elites dirigentes, a partir da Idade Média até
nossos dias. É um processo de desdouramento, ao pé da
letra, pelo qual cada vez menos as elites se apresentam áureas.
Elas foram cada vez mais perdendo o rutilante que as caracterizava.
Toda a gala, todo o protocolo, toda a pompa da Idade
Média eram muito maiores do que a gala, a pompa e o protocolo
do Ancien Régime1. Se compararmos depois o
Ancien Régime com a sociedade posterior à
Revolução Francesa, veremos que ao longo do século
XIX tudo foi decaindo até a Belle Époque2.
O século XIX, de fato, termina com a I Guerra Mundial em 1914
outra queda. E, por fim, com a II Guerra Mundial última
grande queda acaba a era dos galos!
O galo convenceu-se de que era melhor se transformar
em pato...
1.Época histórica que se estende
do fim da Idade Média até a Revolução
Francesa de 1789.
2.Época histórica que compreende
os últimos anos do século XIX até a I Guerra
Mundial (1914-1918).
Excertos da conferência proferida pelo Prof.
Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da
TFP em 7 de dezembro de 1973. Sem revisão do autor.
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