30 anos de histórico manifesto contra o socialismo autogestionário
O socialismo autogestionário: em vista do comunismo, barreira ou cabeça- de-ponte? É o título do documento, de autoria de Plinio Corrêa de Oliveira, que denunciou o programa autogestionário do Partido Socialista Francês, que pretendia conduzir a sociedade a uma espantosa desagregação e instaurar uma igualdade radical.
Sr. Jean Goyard
“O sonho comunista era o de estabelecer uma sociedade sem Estado nem estruturas, na qual os cidadãos governariam a si próprios em torno de soviets”
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No último mês de dezembro completaram-se 30 anos de um lance especialmente memorável, efetuado conjuntamente pelas TFPs de 13 países. Consistiu na publicação de um manifesto-bomba de autoria do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, ocupando seis páginas de jornais dos mais importantes do mundo, no qual era denunciado o programa autogestionário do governo socialista do presidente francês François Mitterrand. Tal programa correspondia a uma radical revolução que pretendia subverter completamente o Estado, a sociedade e a família, com repercussão no mundo inteiro, dada a natural irradiação de tudo quanto procede da França no domínio sócio-cultural.
Catolicismo teve a honra de participar dessa epopéia internacional, pois o documento foi publicado na íntegra em edição especial da revista (janeiro e fevereiro/1982). Agora, por ocasião do trigésimo aniversário desse lance, Catolicismo entrevistou o Sr. Jean Goyard, porta-voz e um dos mais antigos membros da Sociedade Francesa de Defesa da Tradição, Família e Propriedade – TFP.
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Catolicismo — Antes de entrar no cerne doutrinário do tema autogestão e das repercussões do manifesto O socialismo autogestionário: em vista do comunismo, barreira ou cabeça-de-ponte?, o Sr. poderia dizer uma palavra sobre a campanha de divulgação dessa mensagem?
O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira (foto acima), segura um exemplar do manifesto publicado em 45 dos maiores e mais influentes jornais de 19 países da Europa, das Américas e da Oceania.
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Sr. Jean Goyard — Com muito gosto. Foi no dia 9 de dezembro de 1981 que o manifesto, redigido e assinado pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, presidente da TFP brasileira, e apoiado pelas demais TFPs existentes, apareceu em dois importantes jornais dos Estados Unidos e da Alemanha: respectivamente o “Washington Post” e o “Frankfurter Algemeine Zeitung”. Nas semanas e meses seguintes, a íntegra do documento foi reproduzida em 45 dos maiores e mais influentes jornais de 19 países da Europa, das Américas e da Oceania. Pouco depois, um denso resumo do estudo foi publicado em 13 línguas de 49 países dos cinco continentes. A tiragem total do documento foi de 33,5 milhões de exemplares. Em seu conjunto, trata-se, sem a menor sombra de dúvida, de um dos maiores esforços publicitários não comerciais da história da mídia.
Catolicismo — Essas cifras são de fato impressionantes. Mas qual a necessidade ou oportunidade de tal esforço publicitário?
Francois Mitterrand
“O Projeto Socialista era baseado na autogestão. O Partido Comunista Francês pôs em surdina seu stalinismo e aprovou um Programa baseado na autogestão”
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Sr. Jean Goyard — Para entendê-lo é preciso colocar-se no contexto da época, ou seja, no início dos anos 1980, quando o comunismo, agonizante nos países atrás da Cortina de Ferro, acabava de conquistar o poder na França, fruto de uma aliança entre comunistas e socialistas, conduzida por um líder carismático, François Mitterrand. Este tinha conseguido que os eleitores sonhassem com uma nova utopia de esquerda, a "autogestão socialista", a qual supostamente não continha as mazelas do "socialismo centralizado" dos “camaradas” do Leste Europeu. Tal programa poderia re-entusiasmar as esquerdas desanimadas no mundo inteiro. O prestígio internacional da França e seu rayonnement cultural seriam fatores propícios para esse revigoramento.
Catolicismo — Para as esquerdas era, então, uma hora delicada e decisiva...
Sr. Jean Goyard — Exatamente. O regime soviético encontrava-se corroído por uma crise interna que remontava às suas próprias origens. A URSS havia sido construída sobre um sistema antinatural e só podia sobreviver através da violência e da repressão. Em 1997, pesquisadores universitários publicaram uma obra intitulada O Livro Negro do Comunismo, na qual mostram que o número de mortos nas mãos ensanguentadas dos diferentes regimes comunistas ascendia a 100 milhões. Essa cifra é inferior à realidade: a comissão que estudou a repressão do regime soviético avaliou que só na URSS, entre 1917 e 1953, o número de vítimas foi de 43 milhões, ou seja, o dobro da cifra mencionada no Livro Negro para esse período. Recurso tão vasto à violência atesta que o regime era politicamente muito fraco. E, segundo tal comissão, para sobreviver na Rússia e alhures, a revolução comunista deveria exportar seu modelo a outros países mais ricos, que pudessem depois subvencionar o ineficiente regime socialista. Donde o interesse dos comunistas russos pela revolução cubana e sua exportação para o resto da América Latina, notadamente para o Brasil, país tão rico de recursos naturais.
Catolicismo — Mas esse regime totalitário e centralizador de fato correspondia ao ideal de Marx e Lenine, ou foi um desvio causado por circunstâncias internas e externas da revolução bolchevista?
Sr. Jean Goyard — O sonho comunista de Marx era o de estabelecer uma sociedade sem Estado nem estruturas, na qual os cidadãos governariam a si próprios em torno de pequenos soviets — conselhos compostos de operários, camponeses e soldados. De acordo com a utopia marxista, esse regime de autogoverno dos soviets seria anárquico, ou seja, literalmente sem governo e sem chefes, e só ele estabeleceria a igualdade e a fraternidade universais. Tratava-se, portanto, de uma utopia autogestionária segundo a qual cada soviet, cada pequena unidade de produção e de vida social geriria ela própria seus afazeres. As primeiras experiências de comunas autogeridas resultaram em total fracasso, obrigando a sua extinção e a instalação rápida do Estado centralizado e totalitário soviético.
Catolicismo — A utopia autogestionária foi então abandonada?
Sr. Jean Goyard — Nem um pouco. Para Stalin e seus asseclas, a ditadura do proletariado era apenas uma etapa transitória para a construção do regime comunista. A última Constituição da União Soviética, redigida por Brezhnev em 1977, ainda proclamava esse ideal autogestionário em seu Preâmbulo, que dizia: "O objetivo supremo do Estado soviético é edificar a sociedade comunista sem classes, na qual desenvolver-se-á a autogestão social comunista".
Catolicismo — Mas os partidos comunistas de fora da Rússia não propugnavam a autogestão, e sim a ditadura do proletariado...
Sr. Jean Goyard — Depois da Segunda Guerra Mundial, graças à traição das potências aliadas em Yalta, o comunismo deu um passo gigantesco na Europa do Leste, abocanhando países muito mais ricos do que a Rússia, como a Alemanha do Leste, a Tchecoslováquia, a Polônia, etc. E o regime que implantou nesses países foi uma cópia do modelo centralizado soviético. A única exceção foi a Iugoslávia do marechal Tito, que nos anos 1960 tentou descentralizar a produção e implantar uma certa autogestão nas fábricas.
Mons. Casaroli, responsável pela diplomacia vaticana, apoiou a chamada Ostpolitik, ou seja, a política de abertura ao Leste (comunista)
“O Projeto socialista preconizava uma intromissão da coletividade na vida privada de cada um, pretendendo intervir até na decoração interna dos lares!”
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Mas os grandes partidos comunistas ocidentais, como o francês e o italiano, defendiam com unhas e dentes a ditadura do proletariado. Foi somente depois da Revolução da Sorbonne, de um lado, e do esmagamento da “Primavera de Praga”, de outro, ambas ocorridas durante o ano de 1968, que a repressão política e planificação centralizada e ditatorial do modelo soviético passaram a ser mal vistas até pela esquerda. Foi aí que os PCs da França e da Itália iniciaram uma estratégia de "compromisso histórico" com os partidos democrata-cristãos. Tais partidos abriram-se então, novamente, para a perspectiva de um socialismo democrático de tipo autogestionário.
A utopia autogestionária cobrou força nos ambientes esquerdistas — pelo menos na França — nas correntes de esquerda cristã, sobretudo no sindicato Confederação Francesa Democrática de Trabalhadores (versão laicizada e reformada da velha Confederação Francesa de Trabalhadores Cristãos) e numa corrente chamada "deuxième gauche" (segunda esquerda), liderada por Michel Roccard no seio do Partido Socialista Unificado (PSU), que depois confluiu para o Partido Socialista Francês, liderado por François Mitterrand.
Cumpre notar que a esquerda católica, uma das correntes mais dinâmicas dentro do PSU, era representada pelos herdeiros da Jovem República, a expressão política do movimento Le Sillon, fundado por Marc Sagnier (1873-1950) e condenado por São Pio X juntamente com o Modernismo. As heresias e suas versões políticas têm a pele dura!
Catolicismo — Mas isso não é remontar longe demais no tempo?
Sr. Jean Goyard — Nada de grande nasce de repente, diziam os latinos. Mas essa confluência entre católicos e neo-marxistas — o tal "compromisso histórico", que vinha sendo preparado de longa data — foi muito favorecida pela chamada Ostpolitik, ou seja, a política de abertura ao Leste (comunista) iniciada pelo chanceler alemão Willy Brandt e continuada, no plano religioso, pelo então Mons. Casaroli, mais tarde Cardeal e responsável pela diplomacia vaticana. Isso tudo convergia para uma hipotética "terceira via" entre comunismo e capitalismo, discernida pela esquerda católica precisamente na autogestão.
Catolicismo — Houve então uma espécie de renascimento do conceito de autogestão e uma certa efervescência intelectual em torno dele na década de 1970?
Sr. Jean Goyard — Justamente. Desde 1966 já existia na França uma revista científica e militante com o nome Autogestão, que desapareceu 20 anos mais tarde. Em 1976, um intelectual de esquerda, Pierre Ronsanvallon, chegou a escrever um livro exaltando o que ele chamava A era da autogestão. Por isso, ele deu tal título ao livro. Na mesma ocasião, Edmond Maire, secretário-geral do sindicato CFDT, assumindo ares de profeta, escreveu a obra Amanhã a autogestão. Nesse mesmo ano, no seio de prestigiosa plataforma parisiense de investigação na área das ciências humanas e sociais denominada Maison des Sciences de l'Homme (Casa das Ciências Humanas), criou-se o Centro Internacional de Coordenação de Pesquisas sobre a Autogestão.
Catolicismo — E como foi que o conceito de autogestão virou programa político?
Sr. Jean Goyard — O PSU foi um dos fundadores do Partido Socialista Francês e, com ele, infiltrou-se no PS aquilo que se tornou o centro do programa daquele partido, ou seja, a autogestão. Nasceram assim, em 1975, as Quinze teses sobre a autogestão, seguidas depois pelo Projeto Socialista para a França dos anos 80, aprovado num congresso do PS em janeiro de 1980 para servir de plataforma programática da candidatura de François Mitterrand à presidência da República. O Projeto Socialista era todo ele baseado na autogestão. E o Partido Comunista Francês pôs em surdina seu stalinismo centralizador aprovando um Programa Comum de governo baseado igualmente na autogestão. É claro que, com vistas a não assustar o eleitorado e conseguir a eleição de Mitterrand, esse programa autogestionário velava o radicalismo de seus objetivos na gradualidade de sua estratégia para atingi-los.
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